Estava morto. Não havia mais o quê fazer. Senilidade. Coisas dessa vida efêmera. Fechou os olhos e lembrou de quando ele apareceu lá em Jacareacanga. Sua mãe jurava que ele era algum antepassado reencarnado. Será? Não importava mais...
Fora sempre um bom gatinho preto de olhos amarelos. Chegou lá num dia de chuva, miava encolhido, ensopado. Dália o pegou, filhotinho e levou pra seu pai. Seu pai ficou com medo que ele transmitisse alguma doença, mas acabou cedendo à filha de 5 anos. A mãe, Topázio, o chamou de Citrino, por causa dos lindos olhos.
Foi uma bela amizade. Ela cuidou dele, tirou os carrapatos, levou alguns arranhões claramente acidentais. Ele dormia sobre o colo dela e nunca fora tão infiel como os outros gatos, nem tão dependente como os cachorros. Era sim, um amigo. Mais que animal de estimação.
Com lágrimas nos olhos refletiu sobre o que fazer com seu corpinho. Enterrá-lo, talvez? Na comunidade, claro... Todos de lá o adoravam, mesmo com todas as travessuras que um gato maroto pode armar: vasos de plantas derrubados, pegadas de patinhas nas paredes, comidas desaparecidas. Um ritual simplezinho de despedida.
Pegou o telefone e ligou pra mãe:
-Mamãe. O veterinário não pode fazer nada. Ele já estava velhinho, viveu tanto. Quero enterrá-lo aí. Onde a mata ainda é virgem. Assim ele terá a liberdade tão necessária aos felinos.
-Você pode trazê-lo pra cá?
-O veterinário não queria, mas já dei um jeito.
-Tudo bem, filhinha. Ele está livre agora.
-Eu sei, mãe...
-Não fique assim, triste.
-Não dá...
Desligou, ligou pra tia Consoelo. Ela relutou em levá-la até Jacareacanga num dia de semana. Provavelmente não voltaria até o fim de semana, mas fora. Pegaram o primeiro avião pra Brasília, tiveram de burlar normas de segurança, mas Citrino embarcou também.
Sentada à janela, Dália pensava no gatinho. Havia sido um sacrifício convencer a tia a deixa-la trazer o bichinho pra São Paulo. Teve de prometer que ele não faria xixi no tapete. “Não, tia, ele é um gato! Gatos não fazem xixi no tapete!” Ele rasgou o estofado da poltrona preferida de Consoelo e isso quase a fez expulsa-lo de lá. Jurou por todas as coisas possíveis que cuidaria dele e não o deixaria fazer coisas erradas ou que incomodassem a tia.
E ela sabia que havia sido difícil pra ele também, se acostumar à cidade, aos carros, ao asfalto. Na comunidade ele fazia o que queria, e agora ele olhava pras ruas da varanda cercada com uma certa melancolia. Mas estava feliz por estar com Dália, sua dona, sua amiga. E reconfortava-se com os carinhos dela. Às vezes com alguma brincadeira um pouco mais mal-criada.
Nas férias, quando iam pra Jacareacanga, ele se esbaldava, sujava as patinhas de terra, brincava de subir nas arvores e caçar passarinhos, mas nunca conseguiu pegar nenhum. Era pacifico. Gostava mais da comidinha em lata pra gatos sabor sardinha e de melancia. Todos riam quando o viam comer melancia. Mas ele era apaixonado por essa fruta.
Já na comunidade, a mãe a abraçou com carinho. Deixou que ela descansasse um pouco em seu velho quarto, com um incenso de rosas brancas aceso. Quando Dália saiu, já estava tudo pronto.
Todos os irmãos estava em roda e acompanharam Topázio até o lugar escolhido para a morada de Citrino. Dália levava seu corpinho numa caixa pequena, de madeira, nas mãos. Seu nariz estava vermelho.
Enterraram-no ao lado da árvore onde ele costumava se pendurar. E sobre sua covinha, plantaram diversos tipos de mudinhas com flores brancas. Todos estavam comovidos. Talvez nem tanto pela morte de Citrino. Talvez nem tanto pelo sofrimento de Dália. Era simplesmente inexplicável, mas sentiam em seus corações.
Voltavam agora para as casas. Todos quietos, sem palavras mais reconfortantes que o próprio silêncio. Apenas o barulho da mata, com seus grilos e cigarras ao longe. Um pássaro passou voando, rasante. Depois voou de volta.
Pareceu flutuar suavemente até a janela aberta do quarto de Dália. Só aí se pode ver que ele era amarelo e preto. Com sua pseudo-venenosidade, cantou alguma canção triste que só os pássaros compreendem. Pulou lá pra dentro.
Topázio entrou em casa e seguiu até o quarto. Iria ajuda-lo a sair de lá. Ao abrir a porta, o encontrou mirando firmemente a foto de Dália com Citrino que havia no quarto. Ele então virou-se pra ela e murmurou algo em sua língua cantada.
A filha entrara logo atrás da mãe. E ambas, tomadas pelo mesmo sentimento, olharam-se, olhos nos olhos, e ao mesmo tempo ouviram algo estranho vindo do canto do quarto. Era um emaranhado de folhas seca e penas.
O passarinho amarelo e preto voou para fora, dando seu recém-nascido filhote para as duas mulheres. Elas aceitaram prontamente a adoção. Foi involuntário. O filhote estava ainda de olhos fechados e sem penas. Sabiam, racionalmente, que seria difícil que ele sobrevivesse sem a mãe. Mas seus corações souberam que ele viveria para cantar a mesma canção cúmplice do enterro de Citrino. E suas almas se aqueceram ao perceber que esse pássaro não viera substitui-lo. Era, sim, o próprio amigo, novamente sozinho, semi-fênix. Chamaram-no Cristal, que surge da refinação e da purificação.
Epílogo: Calma, leitor apressado. Não imagine que ele viverá engaiolado. Muito pelo contrário. A comunidade alternativa cuidará dele, o alimentará principalmente com melancia que ele tanto gostava e o tornará livre, mas ele será sempre grato e seu instinto da vida passada o trará sempre de volta para que entoe a mesma doce canção.
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